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Doutor Sócrates

Da FOLHA

Por GUILHERME BOULOS

Ele entendeu que o futebol, pelas paixões que mobiliza, é um fenômeno político

“Quando eu era jogador, minhas pernas amplificavam minha voz. Se as pessoas não tiverem o poder de dizer as coisas, eu vou dizer por elas”. Sócrates Brasileiro teria completado 67 anos na semana passada. Não tive o privilégio de vê-lo jogar. Em minha infância, a camisa oito corintiana era vestida por Ezequiel, por Wilson Mano, com aquele estilo “raçudo” oposto ao do Doutor.

Tom Cardoso conta na biografia de Sócrates que seu pai, Raimundo —leitor de Platão, de onde tirou a inspiração filosófica para o nome do filho—, gritava enlouquecido nos jogos do Botafogo de Ribeirão Preto, onde o craque iniciou sua carreira: “Oito, sai da sombra”. O jovem de personalidade forte, que combinava o gênio futebolístico com a formação em medicina e a boemia no bar do Leo, tinha um estilo majestoso em campo. Desnecessário dizer que, mais adiante, isso lhe causou atritos com a torcida corintiana. Muitas vezes nós preferimos um carrinho na lateral do que passes de calcanhar. Mas o Doutor terminou por conquistar a todos.

Além de grande craque, ele era uma voz. Com o país fervendo ante o declínio lento e gradual da ditadura militar, Sócrates foi o símbolo da Democracia Corinthiana, um experimento único no futebol, que questionou o ambiente autoritário, dando poder a jogadores e funcionários. Liderado por ele, Wladimir e Casagrande e potencializado por Adilson Monteiro Alves, o movimento foi além do esporte. Quando, na final do campeonato paulista de 1983, os jogadores entram em campo com a faixa “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”, ali havia um recado direto à ditadura.

O capitão da brilhante seleção de 82 era um contestador nato. Apoiou a candidatura do metalúrgico Lula ao governo de São Paulo naquele ano, frequentou os comícios pelas Diretas e chegou a condicionar sua permanência no futebol brasileiro à aprovação da emenda Dante de Oliveira. De fato, após a vitória momentânea da ditadura, deixou o Brasil rumo ao futebol italiano. Antes disso, já havia recusado uma oferta milionária da Roma, alegando que trairia seus próprios valores se fosse movido apenas por dinheiro.

Sócrates entendeu que o futebol, pelas paixões que mobiliza, é um fenômeno político. Suas pernas amplificavam sua voz. Numa entrevista a Juca Kfouri, ele classificou as torcidas organizadas como um dos maiores movimentos populares do Brasil e que, se politizadas, mudariam as coisas não só no futebol. As manifestações antifascistas do ano passado talvez tenham sido um prelúdio. Olhando o Brasil de hoje e sua dramática semelhança com dilemas dos anos 80, Sócrates se agiganta ainda mais.

Que falta faz o Doutor.

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