Fim à cultura da imbecilidade

Torcedores brasileiros com estrangeira

Da FOLHA

Por MARILIZ PEREIRA JORGE

Vídeo de torcedores brasileiros com estrangeira é mais do que babaquice, é crime

Você já deve ter visto, lido ou ouvido falar do vídeo em que torcedores brasileiros cercam uma mulher, supostamente russa, que pula e repete com a turba “boceta rosa”. Há outro vídeo, ainda pouco compartilhado, em que homens fazem três garotas, também pouco íntimas do português, repetirem “eu vou dar a boceta para você”. Há relatos de outros episódios com homens de outras nacionalidades. Isso dá uma ideia de que essas atitudes podem não ser isoladas, mas apenas o pouco do que acontece e vai parar na internet.

Não é brincadeira idiota, não é bagunça, não é molecagem. É crime. É agressão contra mulher.

“No Brasil esse tipo de conduta pode ser considerado três tipos de crime. O primeiro é importunação ofensiva ao pudor, que coloca a pessoa numa situação constrangedora. Há também a possibilidade de ser tipificado como crime de injúria, porque expõe a honra subjetiva dessa mulher, é como um xingamento. E isso pode ter um aumento de pena porque foi cometido por um meio que alcança um maior número de pessoas, que é via internet. Mas nesse caso a própria vítima tem que entrar com uma queixa-crime. E por último, pode ser considerado constrangimento ilegal, porque apesar de não ter tido violência, ela estava numa posição de vulnerabilidade e parece ter sido coagida a participar daquilo”, explica a promotora Gabriela Mansur, especialista no combate à violência contra a mulher.

Para que os agressores em questão sejam punidos no Brasil é necessário que a conduta deles seja considerada crime na Rússia e que esteja incluído dentre as infrações em que o Brasil autoriza extradição. Infelizmente, as leis que protegem a mulher são ainda mais frágeis lá do que por aqui. As vítimas teriam que procurar ajuda legal para que houvesse a possibilidade de alguma punição. Mas mesmo com a repercussão não é difícil que aquelas garotas jamais saibam ao que foram expostas. Mesmo que tomem conhecimento precisam ter consciência de que foram agredidas. Sabemos que no mundo machista em que vivemos muitos comportamentos que começam a ser encarados como inaceitáveis foram tratados com naturalidade desde sempre. E ainda são, inclusive pelas vítimas.

Basta ver que as reações se dividiram. Há muita gente indignada e enojada com as cenas absurdas protagonizadas por aqueles brasileiros, mas há também um número assustador de homens e também de mulheres que encarou o episódio como uma brincadeira, uma infantilidade, no máximo uma atitude imbecil.

É muito mais do que imbecilidade. É mais do que babaquice, desrespeito, falta de bom senso. É a crença de que tudo bem tratar uma mulher dessa forma. Vou mais longe, quem induz uma pessoa a repetir que “vai dar a boceta” sem saber o que fala é o mesmo tipo de gente que faz um gringo repetir que é “veadinho” ou “otário”.

Ainda que tenha sido uma atitude machista, não se trata apenas de machismo. O buraco é muito mais embaixo. Ainda que tenha sido protagonizada por homens brancos e com poder aquisitivo é simplista dizer que cor e escolaridade sejam as causas de atitudes como aquela. Ainda ontem falávamos de um estupro coletivo praticado dentro de uma favela por homens pobres, possivelmente iletrados, brancos e negros. Machismo não tem classe social. E um homem que não respeita uma mulher provavelmente não respeita nenhuma minoria, nem ninguém.

É possível que legalmente não aconteça nada aos envolvidos e que todos saiam dessa história sem nenhum tipo de penalização, a não ser a exposição pública. Parece pouco, mas se envergonhar perante a sociedade, parentes e amigos já é um bom começo para que outros pensem duas vezes em relação às atitudes que têm.

O mundo jamais será esse lugar cor-de-rosa, livre de machismo, racismo, homofobia, como querem acreditar que será. Mas as pessoas precisam ao menos entender que não mais toleraremos esse tipo de comportamento sem que haja indignação, revolta e sempre que possível cobrança da justiça. Se estamos longe de combater com eficiência a cultura do machismo, do estupro, é porque infelizmente muita gente não entendeu que é a realidade. Que comecemos, então, a dar fim à cultura da imbecilidade.

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