Nelson Nicolau, o destino de um político honesto nas mãos do Supremo

Por LUIS NASSIF

O indulto do dia das Mães permitiu a meu amigo Nelsinho Nicolau deixar o presídio de Limeira. É um presídio civilizado, para presos de baixa periculosidade. Nele, Nelsinho coordena rodas de leitura para os demais presos e é mediador dos debates. O primeiro foi sobre o livro “Capitães de Areia”, que retrata bem a população carcerária, a maioria jovens apanhados com algumas gramas de drogas. Em um dos últimos debates, sobre a queda do prédio no Largo do Arouche, se surpreendeu com a reação dos demais prisioneiros, taxando os moradores de “vagabundos”.

Não foi a primeira decepção de Nelson com a natureza humana.

Conheci Nelsinho em 1968, quando um grupo de secundaristas do Instituto Educacional Coronel Cristiano Osório de Oliveira, de São João da Boa Vista, ajudamos na campanha a prefeito de seu pai, Durval Nicolau. Médico do INAMPS, logo após o golpe de 64 Durval e seu irmão Jorge foram expulsos de São João por fazendeiros armados. . Voltou em 1968, em uma campanha épica contra três candidatos da Arena. A apuração deu vitória a ele. Enquanto comemorávamos na praça, a Polícia fechou o Palmeiras, onde se dava a apuração, fez uma recontagem rápida e deu a vitória ao mais votado dos candidatos da Arena.

Nelsinho voltou à cena em 1974, como um dos primeiros prefeitos eleitos do MDB. Fez uma administração admirável em São João da Boa Vista, tornando-se símbolo de uma nova política que surgia. Depois, foi eleito deputado estadual. É dele a lei que terminou com a aposentadoria dos deputados paulistas após duas legislaturas, justamente quando ele mesmo teria direito à aposentadoria. Com a iniciativa, buscava dar eco ao seu discurso permanente: o de que era possível fazer política com honestidade.

No governo Fleury, foi indicado para a Diretoria da Área Agrícola do Banespa. Lá instituiu  o crédito por produto, uma revolução na época, que ajudou a contornar a enorme instabilidade monetária do período.

Ali começaram suas desventuras. Havia uma quadrilha atuando no Banespa, em outras diretorias. Cada diretoria era responsável pelo crédito de sua área. Analisava os pedidos, aprovava e, depois, apresentava para o colegiado referendar. 14 desses empréstimos estavam envenenados, nenhum deles sob responsabilidade de Nelsinho.

De nada adiantou. Foram abertos processos contra todos os diretores do Banespa. E todos eles foram patrocinados por um grande escritório de advocacia paulista, cujo titular é conhecido por sua defesa dos direitos humanos e dos presidiários.

Um a um, os processos foram prescrevendo. Mas Nelson decidiu se candidatar novamente a prefeito de sua terra. Eleito, ganhou prerrogativas de foro, essa figura esdrúxula que os leigos chamam de “foro privilegiado”. Com isso, seu caso subiu para a segunda instância, não se beneficiando da prescrição.

Nelson foi alertado para isso, mas sua vocação pública falou mais alto. Fez uma gestão modelar. Ganhou prêmios como prefeito empreendedor e aprovou uma Lei do Zoneamento que se tornou exemplo para toda a região.

Mas o processo foi se acelerando e o emérito advogado abandonou a causa, por uma questão de perda de escala. Defender vários diretores era mais rentável e demandava o mesmo trabalho. Um só, tornava-se oneroso. E Nelsinho foi jogado ao relento.

Tornou-se alvo de várias denúncias, uma denúncia para cada operação aprovada, todas por “gestão temerária”, nenhuma por corrupção, nenhuma operação sendo de sua responsabilidade.

Em um dos depoimentos, ousou afrontar um semideus. Um juiz agressivo mencionou a desonestidade do grupo de Quércia e incluiu Nelsinho na generalização. Ele reagiu:

– Seria o mesmo que dizer que todos os juízes são como o juiz Nicolau.

O semideus não gostou e o condenou. Mais tarde, os deuses do Supremo decidiram votar pela prisão após condenação em segunda instância. E, aí, Nelsinho passou a viver seu inferno pessoal, recebendo a solidariedade de Del Bosco do Amaral, que conviveu com ele.

Ficou preso um tempo, condenado pelo primeiro processo. Saiu com um habeas corpus de Gilmar Mendes que, no entanto, não julgou o mérito da causa. Voltou para a cadeia, devido ao segundo processo. No momento, sua liberdade depende dos votos de Gilmar, julgando o mérito do primeiro processo, e Ricardo Lewandowski, analisando o pedido de habeas corpus do segundo.

Em sua casa, em São João, gozando o breve intervalo livre. Espírito forte, Nelson tem dois lamentos.

O primeiro, o de não poder participar do debate político atual. O segundo, não poder mais difundir sua grande mensagem: que é possível fazer política honesta.

O punitivismo cego venceu a esperança.

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Uma resposta para Nelson Nicolau, o destino de um político honesto nas mãos do Supremo

  1. “Voltou em 1968, em uma campanha épica contra três candidatos da Arena. A apuração deu vitória a ele. Enquanto comemorávamos na praça, a Polícia fechou o Palmeiras, onde se dava a apuração, fez uma recontagem rápida e deu a vitória ao mais votado dos candidatos da Arena.”

    E esse tipo de gente que muitos aqui defendem. E esse tipo de gente que apoia Bolsotario.

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