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Depois da CIA, outro documento sinistro

Da FOLHA

Por CLÓVIS ROSSI

A mentalidade paranoica prosseguiu na democracia

A autorização para matar, revelada pelo documento da CIA divulgado por Matias Spektor na semana passada, é consequência inescapável de uma paranoia que, se chegou ao auge na ditadura, permaneceu também na democracia, ao menos por algum tempo.

É o que fica claro em documento que a Folha obteve e divulgou em 1988. Era o texto da 17ª Conferência dos Exércitos Americanos, realizada em Mar del Plata (Argentina) em 1987. Já haviam caído as ditaduras no Brasil (1985), na própria Argentina (1983) e no Uruguai (1985), mas estava de pé no Chile.

Em plena democracia, o documento dos exércitos era um monumento à paranoia anticomunista e ao intervencionismo militar para enfrentar o fantasma do comunismo. O informe sobre “a situação da subversão no Brasil”, assinado pelo general de brigada Paulo Neves de Aquino, afirma que “dos 559 membros da Assembleia Geral Constituinte, cerca de 30% são militantes ou simpatizantes das OS” (“organizações subversivas”).

Neves de Aquino não era figura secundária na hierarquia militar, tanto que, depois, foi comandante militar do Sudeste, a guarnição mais importante do país, por ter sede em São Paulo.

Na época da emissão do documento (repito, 1987), a luta armada já havia sido desbaratada e todos os constituintes tinham mandatos legitimamente obtidos nas urnas, como candidatos de partidos legais, que, como tais, não podiam ser chamados de “organizações subversivas”.

Um dos 15 acordos assinados em Mar del Plata (o de número 15) partia do princípio de que “o Movimento Comunista Internacional (MCI) continua sendo a ameaça comum e principal a todos os países americanos e, como tal, deve ser combatida, particularmente através da união e de procedimentos comuns entre todos os exércitos americanos”.

Essa expressão, “união e procedimentos comuns”, é, claramente, o espírito que orientou a Operação Condor, a multinacional da repressão que perseguiu e matou adversários das ditaduras instaladas em boa parte da região.

O documento defendia, ainda, a intervenção dos exércitos “nos demais campos do poder”, além do campo estritamente militar.

O documento dedicou 15 páginas à análise de Teologia da Libertação, formulação teológica embebida de marxismo desenvolvida na América Latina a partir da década de 1960.

A análise de inteligência militar não condena a TL em si, mas sim o que chama de “variantes marxistas da Teologia da Libertação”. Cita nominalmente um punhado de teólogos como integrantes dessas “variantes marxistas”, entre eles o brasileiro Hugo Assman, sociólogo e doutor em Teologia (morreu em 2008).

Chama a atenção que, entre os “subversivos” citados, figurava o jesuíta espanhol Ignácio Ellacuría. Dois anos depois, em 1989, Ellacuría foi assassinado em El Salvador, onde servia, por um pelotão do Batalhão Atlacatl das Forças Armadas locais, junto com outros cinco jesuítas.

A mentalidade que impregna o documento de 1987, já na democracia, ajuda a entender a decisão de autorizar execuções de opositores, tomada na ditadura.

Mentalidade assim descrita em editorial desta Folha a propósito da publicação do documento dos exércitos emitido em Mar del Plata: “Seria uma débil opinião pública, por outro lado, a que não repudiasse com máximo vigor este testemunho de um autoritarismo, de uma rusticidade mental, de uma estreiteza e de uma prepotência que já foram amplamente ultrapassados pela sociedade brasileira”.

O dramático é que reapareçam agora, 33 anos após o fim da ditadura, cabeças que preservam essa “rusticidade mental” e essa “prepotência” que o editorial dava por ultrapassadas.

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